Notícias Notícias

Juliano Amengual, menção honrosa: “Tema das drogas é tratado de forma simplista”

01.12.16 | Notícias
Catharina Signorini, Juliano Tatsch, Suzy Scarton e Daniel Sanes

Catharina Signorini, Juliano Tatsch, Suzy Scarton e Daniel Sanes, jornalistas do Jornal do Comércio e vencedores da segunda menção honrosa do Prêmio Gilberto Velho

Juliano Amengual Tatsch, 32 anos, coordenou a equipe que venceu a segunda menção honrosa do prêmio pela reportagem “Drogas: Os caminhos das políticas públicas no Brasil”. Juliano trabalha como jornalista há nove anos e é redator do Jornal do Comércio.

Seu trabalho é um dossiê sobre drogas. Por que o Jornal do Comércio resolveu dedicar esse espaço nobre a esse tema? O tema é muito discutido no Rio Grande do Sul?

O tema, mesmo que palpitante, com um julgamento de extrema importância ocorrendo no Supremo Tribunal Federal, ainda é tratado de forma muito simplista no Brasil. As drogas são vistas com um olhar dicotômico: de um lado, estão aqueles, com posições políticas mais progressistas, que apontam a regulamentação da produção, comércio e consumo como o caminho a ser tomado, na medida em que, o que foi feito até agora, não deu resultados. De outro, estão pessoas de viés ideológico mais conservador, que insistem que afrouxar a repressão seria um erro e que, ao contrário, deveríamos investir ainda mais na política de guerra às drogas. Esses lados, via de regra, não dialogam no Brasil. Assim, vivemos esse impasse, com uma política que, claramente não funciona, mas sem poder aplicar experiências outras que já mostraram dar resultados melhores. O Rio Grande do Sul, e, mais especificamente, Porto Alegre, vive uma grave crise de segurança pública. No momento, a Força Nacional de Segurança está patrulhando as ruas da capital. Para os gestores públicos, o grande vilão do aumento nos índices de violência é o tráfico. A meta é combater a violência gerada pelo tráfico. Não se fala em nenhum momento de formas de evitar que os jovens busquem nas facções criminosas uma forma de vida. Não se fala em combater a causa, apenas as consequências. Assim, seguimos gastando muito em uma política de segurança que, na prática, dá tanto resultado como enxugar gelo.

Pode explicar o que é o Jornal da Lei?

O Jornal da Lei é um caderno semanal que sai encartado no Jornal do Comércio todas as terças-feiras. De modo geral, a publicação traz temas referentes ao Direito, à legislação, ao Judiciário e demais órgãos do sistema de Justiça. Tradicionalmente, no mês de agosto, em que é comemorado o Dia do Advogado, o caderno traz um conteúdo especial, temático, tratando de um assunto específico de forma bastante aprofundada, como é o caso das reportagens em questão.

Como foi a repercussão da matéria?

Bastante positiva. Como disse anteriormente, o tema ainda é um tabu e, sempre que se fala sobre de modo diversificado, abordando pontos não comumente tratados nas manchetes policiais, o resultado é uma repercussão grande, seja de pessoas concordando com os pontos tratados no trabalho, seja daquelas que se sentem atingidas de alguma forma com posições menos conservadoras. O objetivo principal do trabalho foi fomentar o debate acerca da questão e, posso dizer sem medo de errar, que ele foi satisfatoriamente alcançado.

Como foi o processo de produção da reportagem?

Trabalhamos por cerca de 5 meses na produção do conteúdo. Mais de 20 pessoas foram entrevistadas, entre acadêmicos, ativistas, gestores públicos, cientistas, entre outros. No total, cinco pessoas trabalharam na produção – dois repórteres, dois repórteres/editores e uma editora. Além disso, um diagramador fez todo o planejamento gráfico.

O que mais o surpreendeu enquanto escrevia a matéria?

Não diria que foi uma surpresa, mas sim o que mais me chamou a atenção. É incrível como temos estudiosos tão qualificados, com produção acadêmica tão profícua e profunda, com décadas de trabalho e dedicação ao assunto, atuando em diversas áreas – sociologia, medicina, segurança, antropologia, direito, educação, psicologia, enfim – e, ainda assim, vemos pessoas tão fracas de embasamento teórico e prático, fracas de conhecimento, comandando as políticas públicas sobre o tema no Brasil. Ao mesmo tempo que indica que podemos avançar, isso mostra que, enquanto não superarmos barreiras de cunho político, dificilmente iremos enxergar novos horizontes a respeito da questão.

A reportagem começa afirmando que o fracasso do atual modelo de política de drogas é ponto pacífico. Nesse caso, o que tem impedido o Brasil de mudar de forma mais profunda a legislação e as políticas?

Resumidamente, interesses políticos. A imagem das drogas ilícitas no Brasil está relacionada diretamente à violência. Agir em direção à uma política mais liberal e menos repressora é agir contrariamente ao que pensa boa parte da população brasileira. Vivemos, neste momento, uma guinada à direita no país. Mesmo partidos de esquerda, quando estiveram no poder, pouco ou nada fizeram para que tivéssemos essas mudanças. Os principais avanços, assim, acabam partindo do Judiciário, e não de uma classe política que, desacreditada em sua maioria, age conforme seus próprios interesses, fechando os olhos para uma abordagem mais ampla, reformista, e que, mesmo contrariando seus grupos de eleitores, poderia nos levar a um futuro menos sombrio.

por Daniella Vianna