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“A cobertura de drogas é muito atrelada à policial”

24.11.17 | Notícias

“Vejo a cobertura de drogas muito atrelada à cobertura policial. Talvez resida aí o maior erro. Nós, imprensa, precisamos debater o tema não nos atendo somente à criminalidade, mas aos mais diversos aspectos relativos às drogas lícitas e ilícitas”. Esta frase é do repórter da CBN Gabriel Sabóia, ganhador de uma das menções honrosas no Prêmio Gilberto Velho Mídia e Drogas 2017 pela reportagem “Maconha além do tabu“, da CBN. Abaixo uma conversa que tivemos com ele:

Gabriel Sabóia, repórter da CBN no Rio de Janeiro fez série de reportagens sobre a Maconha

Gabriel Sabóia, repórter da CBN no Rio de Janeiro fez série de reportagens sobre a Maconha

Como surgiu essa pauta?

A pauta inicial surgiu do contato feito por uma mãe, que lutava pelo direito de distribuir o óleo à base de Cannabis para outras mulheres em situação parecida. A rede colaborativa formada por elas me levou a frequentar eventos sobre o tema e conhecer outras pessoas que, de certa forma, também lutavam na Justiça pelos mais diversos direitos ao uso e distribuição da cannabis. A partir daí a série de reportagens foi ‘desenhada’ de maneira bastante natural.

Quais foram as dificuldades de realiza-la? Como foi o processo de produção da matéria? 

Duas questões centrais se mostraram desafios iniciais: fazer contato com os personagens – e convencê-los a aparecer em uma reportagem – e entender as questões jurídicas implícitas ali, bem como o histórico dessas pessoas. A produção da matéria demorou dois meses, entre consulta com especialistas, indicações de fontes e entrevistas exclusivas.

O que mais o surpreendeu ao fazer a matéria?

A maior surpresa, sem dúvida, foi investigar o cultivo e consumo da maconha sobre diversos prismas e me deparar com uma realidade inusitada em comum: para os principais envolvidos nas questões medicinais e recreativas da maconha, não há debate em relação à liberação da droga (eles já consideram a maconha liberada). O foco se resume somente em relação à regulamentação.

A reportagem teve alguma consequência? 

Nas redes sociais – como é de se esperar – as matérias produziram reações a favor e contra a maconha. Mas, para minha surpresa, recebi vários e-mails de apoio, inclusive de pais e professores que queriam explicar aos seus filhos os vários aspectos relacionados à maconha através da reportagem. A série, é bom lembrar, trouxe também a ótica de pessoas contrárias ao cultivo da maconha para qualquer fim. Entidades e políticos contrários à erva também puderam se posicionar.

O que acha da cobertura da imprensa relativa ao tema das drogas? É preciso mudar?

Ainda vejo a cobertura de drogas muito atrelada à cobertura policial. Talvez resida aí o maior erro. Nós, imprensa, precisamos debater o tema de maneira mais ampla, não nos atendo somente à criminalidade, mas aos mais diversos aspectos relativos às drogas lícitas e ilícitas.

Qual sua visão sobre a política de drogas no Brasil?

Na última reportagem da série, nos debruçamos justamente sobre esse tema: a falta de projetos no Congresso que se proponham, de fato, a estudar a questão das drogas. A maioria das iniciativas pretende, tão somente, endurecer as leis, sem contemplar a segurança pública, tampouco os direitos humanos.

 

Por Gabriel Murga