Notícias Notícias

“A liberdade de expressão precisa ser garantida”

24.11.17 | Notícias

Yago Sales, 23 anos, escreve na imprensa desde os 15, quando começou a publicar artigos nos jornais de Goiânia. Ainda como estagiário do jornal Tribuna do Planalto, encontrou nos ônibus da cidade a reportagem que ganhou o primeiro lugar do Prêmio Gilberto Velho 2017: “Foragido da justiça, pastor explora usuários de drogas em recuperação”, escrita em colaboração com a editora Daniela Martins. Leia abaixo o depoimento dele:

Vencedor do Prêmio Gilberto Velho Yago Sales tem 23 anos e escreve desde os 15

Vencedor do Prêmio Gilberto Velho 2017, Yago Sales tem 23 anos e escreve desde os 15

Como surgiu essa pauta?

Yago – Eu trabalhava para esse jornal, que não tem carro de reportagem, andando sempre de ônibus. Um dia eu fui encontrar uma fonte em um terminal de ônibus e ele não apareceu. Então chegou o Daniel Moraes, o suposto pastor falando alto para os ambulantes, “eu vou pegar ele”. Ele ficou um tempo no terminal.  Eu fiquei observando. Carreguei o meu celular que estava sem bateria. Ele entrou no ônibus e eu fui atrás. Ele entrava nos ônibus com uma [arma] taser, dizendo que era policial. Entrava atrás do Marcos Pina. Esse Marcos tinha sido interno no centro de recuperação do pastor, “Resgatando Vidas”. Mas saiu e levou vários rapazes para vender doces nos ônibus por conta própria. Em Goiânia, a polícia não permite ambulantes nos ônibus, mas os internos em clínicas de recuperação podem. Esse Marcos estava roubando a clientela do pastor, pois falava muito bem. Quando o Daniel entrou no ônibus, ele tentou se esconder, mas o pastor e o comparsa o obrigaram a sair do ônibus e deram uma surra nele.  E eu filmei tudo com meu celular. A mulher do pastor tentava justificar: “Ele é um ladrão.”

E qual foi sua reação?

Eu me identifiquei como jornalista, pedi ajuda às pessoas. Eles levaram o dinheiro que o rapaz tinha de vendas e fugiram. Aí eu comecei a apurar a história. Eu não tinha experiência. Mas descobri que o pastor era foragido da Justiça, condenado por homicídio. Fui atrás dos inquéritos, junto com a Daniela Martins, editora. Uma advogada, minha amiga, também me ajudou. Ao todo,  foram quatro meses de apuração.

 

Tudo isso?

Sim, pela falta de estrutura. Fazia tudo de ônibus. Às vezes ficava sem telefone, pedia dinheiro emprestado para colocar crédito. E o medo também travava. Mas, quanto mais eu demorava, mais detalhes conseguia. Foi a maior reportagem já publicada pelo jornal.

 

E qual foi a repercussão?

A casa de recuperação perdeu os clientes. Ele queria transferir para Uberlândia, mas nós descobrimos e noticiamos o plano. Conseguimos desmontar a operação. A reportagem foi republicada pela Ponte Jornalismo e chamou a atenção. Recebi muitas ameaças, mas tive apoio da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), que lançou uma nota; do Sindicato dos Profissionais de Jornalismo de Goiás e da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). Agradeço muito a essas organizações e à Ponte. A liberdade de expressão precisa ser garantida, mesmo nos rincões de Goiás.

 

O que acha das políticas de drogas no Brasil?

Existe uma criminalização muito grande. Uma repressão muito grande sobre o usuário e o traficante, principalmente os negros e pobres. Investe-se muito mais na repressão do que no tratamento do usuário. Então as pessoas ficam vulneráveis a essas casas terapêuticas, que exploram o sonho dos familiares que querem ver seus entes queridos fora das drogas.