Notícias Notícias

“A mídia reproduz o discurso simplório da repressão”

24.11.17 | Notícias

 

Jornalistas do Povo-Ce conquistaram o 2º lugar no PGV 2017

Igor Cavalcante e Thiago Paiva do Povo-Ce conquistaram o 2º lugar no PGV 2017

O segundo lugar do Prêmio Gilberto Velho 2017 coube ao jornal cearense O Povo, pela série de matérias “Drogas – O fracasso das políticas”, assinada pela dupla de repórteres Igor Cavalcante e Thiago Paiva.  Igor, de 23 anos, natural de Jaguaribe (CE), formou-se pela Universidade Federal do Ceará (UFC) em 2016 e é repórter do Povo desde o ano passado. Thiago Paiva, de 30 anos, nasceu em Fortaleza e desde 2012 é repórter do Núcleo de Segurança Pública de O Povo, atuando em casos de repercussão.

 

Como surgiu a ideia de fazer uma série sobre o fracasso das políticas de drogas?

Thiago – A temática de assuntos correlatos às drogas é recorrente em nossa cobertura. Menos de um mês antes, por exemplo, produzimos a série de reportagens  “Guerra nos Territórios”, que conversa muito com o material premiado. Cheguei a inscrevê-la no prêmio, inclusive, por conta dessa proximidade, embora as drogas não fossem o tema central das matérias. Havia, porém, a necessidade de um aprofundamento. Decidimos, então, levantar esse debate a partir da pesquisa feita pela Secretaria da Segurança Pública de Defesa Social (SSPDS) do Ceará, realizada no primeiro semestre de 2017, que revelou que 84% das vítimas de homicídios em Fortaleza tinham envolvimento com drogas, direto ou indireto. Discutimos, a partir dos números, a eficiência das políticas existentes.

Quanto tempo trabalharam nela? Como se dividiram?

Igor – Trabalhamos por uma semana. Trabalhamos juntos, em grande parte da apuração. Eu, porém, atuei mais diretamente na discussão das políticas existentes e o Thiago, na dinâmica do tráfico em Fortaleza e no Ceará e na forma como as drogas impactam nos homicídios, dentre outros crimes, na Capital.

Quais foram as maiores dificuldades de realizar a série?

Thiago – O acesso aos locais que concentram usuários, por envolver certo risco. A reação dos dependentes às abordagens pode ser agressiva. Porém, não foi o caso. Além disso, soubemos que a SSPDS tinha dados mais recentes sobre o tema, incluindo os três últimos meses. Porém, os dados não nos foram fornecidos, pois seriam divulgados em data futura, posterior à publicação.

O que mais os surpreendeu ao fazer a matéria? Depois de fazer a série, como passaram a ver as políticas de drogas no Brasil?

Igor – A surpresa foi constatar que, apesar do cenário de miséria em que vivem, os usuários, ou pelo menos a maior parte deles, têm a exata noção do tamanho do drama que enfrentam. E descobrir que eles gostariam, sim, de ter uma vida diferente. De mudar, apesar de não conseguirem. Sobre as políticas sobre drogas, nosso sentimento está resumido no título da série. Todas fracassaram. É necessária uma mudança drástica na forma como esse problema é enfrentado no País.

Como foi a repercussão da série?

Thiago – Excelente. Pautou a imprensa local e influenciou a discussão em ambientes acadêmicos.

O que acham da cobertura da imprensa relativa ao tema das drogas? É preciso mudar?

Thiago – Sim, claro. Por vezes, a mídia influencia e reproduz o discurso simplório repressão, como se essa fosse a única atribuição do Estado. Esse assunto não pode ser discutido de maneira tão rasa e estigmatizada. A imprensa precisa evoluir nesse sentido. Dar voz a quem pode contribuir, construtivamente, com esse debate.