Notícias Notícias

Assista às palestras do workshop Drogas em Pauta

31.10.16 | Notícias

Em 2015 o Prêmio Gilberto Velho Mídia e Drogas realizou o workshop Drogas em Pauta, um ciclo de palestras para jornalistas e estudantes de jornalismo, durante o qual foi realizada a premiação dos vencedores do prêmio. O workshop reuniu especialistas para debater questões relacionadas às drogas, tais como legislação, história, saúde, ciência, desafios da cobertura jornalística, segurança pública e mobilização comunitária no Brasil e no mundo. As palestras estão disponíveis na íntegra no canal do Youtube da campanha Da Proibição Nasce o Tráfico. Confira abaixo:

  •  A história da proibição

    O professor de História Moderna da USP, Henrique Carneiro, analisa como a Lei Seca dos Estados Unidos serviu de modelo para o proibicionismo de outras substâncias, comparando esse período dos anos 1920 ao contexto brasileiro das drogas na atualidade. Henrique ressalta que durante o movimento proibicionista americano a bebida alcoólica estava associada à pobreza e ao crime, e que esse período foi marcado pela corrupção, contrabando e crescimento do crime organizado, além das vítimas do consumo de bebidas adulteradas. 

Drogas em Pauta

 

  • Evolução da Legislação

    Professora de Direito Penal e Criminologia da UFRJ, Luciana Boiteux discute as mudanças na legislação relacionada às drogas, apontando seus impactos negativos no âmbito judiciário, penitenciário e na vida de milhares de pessoas. Segundo ela, em 1968, durante o regime militar, houve “uma radicalização dos modelos de controle”, em que o usuário de drogas foi equiparado ao traficante. Desde 2006, o Brasil deixou de impor pena de privação de liberdade aos usuários de drogas. Ainda assim, eles continuam a ser enquadrados como criminosos e podem receber penas alternativas. Permanece ainda a indefinição sobre as quantidades de drogas que caracterizam o usuário e o traficante. Hoje, a distinção fica a cargo do juiz.

Clique aqui para acessar a apresentação de power point.

Drogas em Pauta

 

  • Ciência e mitos

    Psiquiatra da Unifesp e um dos maiores especialistas em dependência química do país, Dartiu Xavier da Silveira apresenta os dados resultantes de um estudo do psiquiatra inglês David Nutt, publicado na revista médica Lancet. Na pesquisa, Nutt avaliou os danos ao próprio usuário e à sociedade causados por uma série de drogas. Segundo a sua análise, o álcool tem maior potencial de dano do que drogas como heroína, crack, cocaína, maconha e ectasy. Dartiu defende a regulação de drogas hoje ilícitas para “normatizar a produção, distribuição e consumo. “Trata-se de retirar o controle da mão dos traficantes. As drogas estão liberadas, tenho acesso facílimo a elas. Não tenho é acesso a droga de boa qualidade”, observou.

Clique aqui para acessar a apresentação de power point.

workshop CESEC 9 e 10 de novembro, Universidade Candido Mendes; Rio de Janeiro, RJ

 

  • Regulação é desafio

    Epidemiologista e pesquisador da Fiocruz, Francisco Inácio Bastos descreve a estrutura do mercado de drogas como uma ampulheta, com produtores e consumidores nas extremidades e os grandes traficantes no meio. “Este centro raramente é tocado por ações policiais ou governamentais. O efeito da repressão sobre produtores, pequenos distribuidores e consumidores é pouco ou nada relevante para a redução da oferta”, avaliou. Inacio ressalta que “as substancias psicoativas aliviam a dor, a ansiedade e fazem parte da sociabilidade. Nossa missão é regular e não suprimir. A cada proibição corresponde uma criação”. Lembrando que a regulação é um processo sempre imperfeito, ele citou como desafios desta etapa “o controle do conteúdo, a informação adequada sobre composição e efeitos e a restrição à propaganda”.

Clique aqui para acessar a apresentação de power point.

Drogas em Pauta

 

  • Imprensa e a cobertura sobre drogas

    Repórter especial da Folha de São Paulo, Fernanda Mena mostra como as perspectivas dominantes na imprensa sobre drogas ilícitas mudaram radicalmente desde o século 19. A imprensa foi fundamental na propagação do discurso contra as drogas,  conduzida por vários grupos, entre eles médicos e missionários, que viam nas drogas ameaça a saúde, à sociedade e aos valores cristãos. “Foi a maior operação de marketing da história”, definiu.

Clique aqui para acessar a apresentação de power point.

Drogas em Pauta

 

  • Imprensa e mídias sociais

    Fundador do coletivo Mídia Ninja e do Estúdio Fluxo, o jornalista Bruno Torturra compara o movimento em prol da legalização das drogas ao movimento gay no passado. Como os usuários de maconha e outras drogas, os gays também eram estigmatizados. “A mobilização conseguiu mudar rapidamente a percepção da imprensa e da sociedade sobre a sexualidade. Este grupo veio a público para dizer: não sou doente, não tenho problema”, disse. Do mesmo modo, Torturra acredita que também está mudando “a narrativa simplista do usuário como vítima e o traficante como vilão”.  Mas a visão do crack como “epidemia” também causa preocupação. “O traficante passa a ser um agente transmissor, como o mosquito que inocula a epidemia. Isso justifica o extermínio.”

Drogas em Pauta

 

  • Segurança pública

    O antropólogo, cientista político e professor da UERJ Luiz Eduardo Soares discorre em tom filosófico sobre as drogas. “Na verdade, a adição é uma tentativa de controle do tempo de exorcismo da morte. Quem adere a uma substância de forma reiterada busca controle e não caos”, observou. “A droga aponta para uma experiência humana radical da relação do sujeito com o seu ser. Lidar com isso com maturidade é enfrentar riqueza extraordinária que somos nós. Estamos diante de algo muito mais sério e profundo do que políticas públicas e definições racionais. Estamos diante dos abismos humanos”.

Drogas em Pauta

 

  • Mobilização Comunitária
    Ativista e fundador do Coletivo Papo Reto, Raull Santiago fala sobre as consequências da guerra às drogas na sua comunidade, o complexo do Alemão. Raull começa sua exposição lendo alguns nomes de uma lista de 134 mortos no Alemão desde o início da ocupação do território, por forças militares e policiais, em 2010. “Nós vivemos a guerra às drogas”, afirmou. Na sua apresentação, ele cita casos de vítimas no conflito, como o menino Eduardo de Jesus, de dez anos, morto em abril por um tiro de um policial. “Somos usados, sofremos e morremos, para que os dedos, a mira da arma e a lente da câmera fiquem apontados para nós e não percebam os verdadeiros seres ruins”, desabafa.

Drogas em Pauta

por Daniella Vianna