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Conheça a vencedora do 1º lugar do Prêmio Gilberto Velho Mídia e Drogas 2016

01.12.16 | Notícias

Débora Melo, jornalista da Carta Capital e vencedora do 1º lugar do Prêmio Gilberto Velho

 

Débora Melo, 32 anos, ganhou o prêmio principal, pelas três reportagens que inscreveu: “O Brasil entra no mapa da medicina psicodélica”; “Osmar Terra e o retrocesso na política de drogas” e “A cracolândia no centro da disputa política em São Paulo” (esta, com colaboração do jornalista Tadeu Amaral). Débora trabalha há dez anos como jornalista e é repórter da Carta Capital.

Você inscreveu três reportagens no Prêmio. O tema das drogas tem sido uma constante no seu trabalho? O que motiva esse seu interesse?

Eu me interesso pelo tema desde que entendi que a guerra às drogas fracassou. Fracassou porque a proibição não acabou com o consumo, homens e mulheres continuam usando drogas para fins medicinais, recreativos ou religiosos. E fracassou porque afasta os usuários dos serviços de saúde, o que vai contra o entendimento de que o abuso de drogas é uma questão de saúde pública. A proibição financia um mercado negro, que enriquece o crime organizado, e esse poder paralelo é combatido com repressão e violência. O que parece, então, é que a guerra às drogas é mais um instrumento de exclusão social, que mata e encarcera qu­ase que exclusivamente os moradores das periferias.

Você se identifica como uma jornalista especializada no tema?

Acredito que sim. Tenho feito reportagens sobre drogas com certa frequência, e esse trabalho aumentou na CartaCapital, um veículo onde temos liberdade para sugerir e produzir matérias relativas à reforma da política de drogas no Brasil e no mundo.

Como foi o processo de produção da reportagem?

A pauta sobre o De Braços Abertos, por exemplo, surgiu a partir das declarações do prefeito eleito de São Paulo, João Doria, de que pretende extinguir o programa realizado na Cracolândia. Cada declaração vinha acompanhada de um absurdo, de um preconceito, conduta que não deixava dúvidas sobre a total falta de conhecimento do novo prefeito a respeito do programa. Diante do risco de que uma política pública inovadora e internacionalmente reconhecida seja interrompida, decidimos dar voz aos beneficiários, para que contassem o impacto do DBA em suas vidas. Já conhecíamos os resultados positivos do programa e nossas entrevistas confirmaram esses dados. Vale dizer que não pedimos indicação de personagens para a prefeitura ou qualquer outro órgão e fomos até hotéis que acolhem os usuários sem comunicação prévia.

Duas matérias inscritas discutem políticas de drogas e a influência de disputas políticas sobre temas como a legalização e políticas de prevenção. Como você vê o contexto atual do debate de drogas no Brasil? Há chance de avançarmos?

Temos um Congresso extremamente conservador, então acho difícil que qualquer avanço venha de lá, mesmo nos próximos anos. O fracasso da guerra às drogas já provocou mudanças nas políticas de diversos países da América Latina, mas o Brasil ainda patina. Aqui, a descriminalização do porte e consumo de maconha está sendo discutida no âmbito do Judiciário (como tem acontecido com outros temas) e eu confio que, ao final do julgamento no Supremo, a decisão será a favor da descriminalização. As experiências bem sucedidas nos Estados Unidos e a recente vitória do “sim” pela legalização da maconha em outros estados dos EUA devem servir de base para os votos dos ministros, assim como a experiência do vizinho Uruguai.

Você mudou sua visão a respeito do tema das drogas a partir da produção das matérias? Como?

Sem dúvida. Cada vez mais eu me convenço de que proibir não é a solução e de que existem diversas alternativas possíveis, com mercados regulados. Escrevendo sobre o tema eu também me dei conta de quanto a proibição atrasa a ciência e a medicina, visto que os efeitos terapêuticos de diversas drogas foram ignorados durante décadas. É urgente que possamos investir em pesquisa sem as amarras da proibição e do preconceito.

por Daniella Vianna