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Alessandra Mendes, 2º lugar: “Ausência do poder público na fiscalização de comunidades terapêuticas permite violações”

01.12.16 | Notícias
Alessandra Mendes, jornalista do jornal Hoje em Dia e vencedora do 2º lugar do Prêmio Gilberto Velho

Alessandra Mendes, jornalista do jornal Hoje em Dia, levou o 2º lugar do Prêmio Gilberto Velho

Alessandra Mendes, 29 anos, levou o segundo lugar do Prêmio Gilberto Velho Mídia e Drogas 2016 pela reportagem “100% irregulares: vistorias em 42 comunidades terapêuticas apontam violações de regras e direitos”. Alessandra trabalha como jornalista há 8 anos e é repórter do jornal Hoje em Dia e produtora da rádio Itatiaia.

Como surgiu a pauta das comunidades terapêuticas? Era um tema que já a interessava?

A pauta surgiu a partir de informações divulgadas por fontes da área de direitos humanos, que tiveram conhecimento do relatório que havia sido feito sobre a situação das comunidades terapêuticas no Estado. O relatório, sigiloso, contém dados que impressionaram até mesmo as pessoas que trabalham na área. Durante vistoria em algumas unidades, foi constatado que todas elas estavam irregulares, seja no que diz respeito à estrutura ou no tratamento dos internos. A violação de direitos humanos, tão aparente nesse caso, é um tema que sempre chamou a minha atenção no intuito de problematizar as questões relacionadas ao assunto e mostrar o impacto que o mesmo tem na vida da sociedade como um todo.

Como foi o processo de produção da reportagem?

Depois de ter tido acesso ao relatório, com dezenas de páginas, primeiro tive de  interpretar os dados e entender a dimensão dos resultados. Para isso, procurei profissionais que atuam na área de tratamento de dependentes químicos e estudiosos sobre a metodologia aplicada em comunidades terapêuticas. Essa apuração foi fundamental, uma vez que esses profissionais detalharam a função desses espaços e ressaltaram os resultados obtidos pela mesma metodologia em todo o mundo. Ao mesmo tempo, alertaram para a necessidade da observância de regras para a atuação das clínicas e do monitoramento constante a ser feito por parte do Estado, que financia o serviço prestado por esses locais. Se a falha existe, inclusive permeada pela violação de direitos humanos, ela conta com a conivência do poder público. Por isso, ouvimos o governo do Estado, que, com base no relatório produzido, aplicou sanções aos locais de tratamento onde foram encontradas as irregularidades e ainda prometeu rever alguns pontos da política pública nessa área.

Qual foi a repercussão da matéria?

A matéria repercutiu muito, principalmente em órgãos voltados aos direitos humanos. A própria Secretaria de Estado de Direitos Humanos abriu um procedimento para definir as providências cabíveis diante das violações constatadas. Além disso, a Secretaria ainda encaminhou o relatório para o Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos (Conedh), colegiado responsável pelo controle social das políticas de direitos humanos no estado. O documento também foi apresentado ao Comitê Estadual de Atenção ao Migrante, Refugiado e Apátrida, Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas e Erradicação do Trabalho Escravo (Comitrate) para exame dos relatos de “Exploração de mão de obra, trabalho compulsório e falta de segurança no trabalho”. Além disso, responsáveis por comunidades terapêuticas também me procuraram para questionar a metodologia do relatório e relatar a falta de acompanhamento do poder público nesta área. Ainda recebemos e-mails de parentes e até ex-internos de comunidades relatando suas experiências nesses locais.

O que mais te surpreendeu enquanto escrevia a matéria?

A falta de acompanhamento ao serviço prestado pelas comunidades terapêuticas foi o que mais me surpreendeu. O próprio poder público, que mantém esses locais, não faz um trabalho constante de monitoramento para checar se a metodologia correta de tratamento está, de fato, sendo aplicada. Diante dessa ausência, muitos locais deixaram de cumprir regras fundamentais, como garantir uma estrutura mínima e tratamento médico e introduziram técnicas de castigo e abstinência de contato familiar, que não condizem com o formato pensado para as comunidades. Ainda me chamou a atenção como o tema é pouco problematizado, já que esse relatório da situação das comunidades é o primeiro do tipo a ser feito em Minas Gerais, sem que houvesse uma demanda da sociedade para tal. O tratamento de dependentes químicos acaba ficando em segundo plano frente a assuntos tidos como “mais importantes”.

Qual a sua opinião sobre as comunidades terapêuticas? Elas devem ser mantidas?

Pesquisas em diversos países apontam a importância do tratamento oferecido pelas comunidades terapêuticas para dependentes químicos. Especialistas que trabalham nesta área, ouvidos durante a reportagem, têm o mesmo entendimento, da vital importância desse tipo de metodologia para garantir a recuperação de usuários de drogas lícitas e ilícitas. Sendo assim, acredito que é um trabalho fundamental para ajudar quem está nessa situação, desde que seja bem executado. Acredito que os resultados só podem ser alcançados se as ações estiverem sendo aplicadas da forma correta. Para isso, é preciso que haja acompanhamento e fiscalização, além de mais transparência do serviço que é realizado. Para que isso ocorra, é preciso não apenas maior envolvimento do Estado, mas também uma cobrança maior da sociedade, que se envolve pouco ou quase nada com o assunto.

por Daniella Vianna

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