Notícias Notícias

Ana Luiza Uwai, 3º lugar: “O tráfico de drogas é a razão pela qual cerca de 90% das mulheres estrangeiras estão presas”

01.12.16 | Notícias
Ana Luiza Uwai, jornalista do Instituto Terra, Trabalho e Cidadania e vencedora do 3º lugar do Prêmio Gilberto Velho

Ana Luiza Uwai, jornalista do Instituto Terra, Trabalho e Cidadania, escreveu trabalho de conclusão de curso sobre estrangeiras presas por tráfico

Ana Luiza Voltolini Uwai, 22 anos, foi a vencedora do terceiro lugar do prêmio com a reportagem “Nosotras: Quem são as bolivianas presas em São Paulo” publicada pela edição brasileira do Le Monde Diplomatique. Ana Luiza trabalha como jornalista no Instituto Terra, Trabalho e Cidadania há dois anos.

Você começa o seu texto falando sobre as limitações de jornalista. Que limites são esses?

Ao longo do desenvolvimento do livro, tive diversos desconfortos em relação à minha posição como jornalista e às reais mudanças que eu poderia trazer àquela situação. Precisei de tempo para entender meus privilégios nesse contexto e aprender a usá-los para ampliar as vozes daquelas mulheres e levar essa pauta a pessoas que pudessem, de fato, mudar suas vidas. Esse foi o papel que eu assumi ao escrever a reportagem e é o que me norteia todos os dias ao trabalhar com direitos humanos.

Como surgiu a ideia de falar das bolivianas presas?

Comecei a trabalhar no Instituto Terra, Trabalho e Cidadania em outubro de 2014. Foi meu primeiro contato profissional com direitos humanos. Ao me aproximar de um dos projetos da organização, o Estrangeiras, que atende mulheres migrantes em situação de prisão na Penitenciária Feminina da Capital (PFC), tive a ideia de escrever sobre elas em meu TCC. Escolhi as bolivianas porque essa é a nacionalidade mais representativa da América Latina na prisão e, por isso, ao escrever seus perfis eu me aproximaria mais da realidade da maior parte da mulheres em conflito com a lei no Brasil.

Seu texto é parte de um trabalho de conclusão de curso como jornalista? É um livro intitulado “Nosotras”?

Sim. Meu TCC foi um livro-reportagem de perfis, em que contei a trajetória de três mulheres bolivianas e mães que foram presas por tráfico de drogas no Brasil. O título Nosotras é uma chamada à reflexão de que todas nós somos mulheres latino-americanas e temos responsabilidade sobre essas histórias, que poderiam ser nossas também.

Como estudante, foi difícil ter acesso às presas? Como foram feitas as entrevistas?

O acesso às mulheres se deu por meio do ITTC, organização da sociedade civil que há 15 anos atende migrantes em conflito com a lei no Brasil, e onde eu trabalho. Por isso, minha relação com as mulheres se tornou não só de pesquisa, mas de trabalho e pessoal. Por exemplo, muitas das mulheres ao saírem do regime fechado vão ao ITTC para sanar dúvidas relativas a trabalho, moradia, saúde, burocracias, etc. Nessas ocasiões pude encontrar com as mulheres e entrevistá-las, pois estavam num lugar onde já havia um vínculo de confiança.

O que mais te tocou em relação à questão das presas por tráfico?

O mais me tocou foi perceber como a prisão é cruel. O tráfico de drogas é a razão pela qual cerca de 90% das mulheres estrangeiras estão presas. Esse número significa muito mais quando se conhece suas histórias e os rostos por trás dele. Essas mulheres são em sua maioria mães, possuem baixa escolaridade, trabalham em empregos informais e são as principais provedoras de seus lares, compostos por filhas, filhos, mães, pais, irmãs, irmãos. Muitas delas fazem uma escolha consciente e assumem riscos ao virem para o Brasil e quando chegam aqui são presas por conta de uma política de guerra às drogas injusta e incoerente, que as mantêm em diversas situações de violações de direitos, não só as mais noticiadas como falta de itens básicos de higiene e superlotação, mas violações inerentes ao cárcere e que não podem ser resolvidas se não com o desencarceramento.

Qual a sua visão sobre a política de drogas do Brasil?

A guerra às drogas é uma política ineficiente. Se, em 2006, a nova lei de drogas surgiu para tentar diminuir o encarceramento ao não prever penas de prisão a pessoas usuárias, ela endureceu as penas para o tráfico. Em 10 anos, o Brasil foi para o 3º lugar no ranking de países que mais prendem no mundo. Até os EUA, de onde importamos a política e o primeiro lugar nesse ranking, está num movimento desencarcerador, enquanto o Brasil só retrocede nesse sentido (e em muitos outros).

A visão dos operadores do direito e da sociedade civil no geral é pautada por instituições, como a mídia e as polícias, que lucram com a criminalização de determinadas substâncias e com o discurso da segurança pública. O crime do tráfico de drogas, considerado hediondo, não é um crime violento e não possui uma vítima direta. Ainda assim, cada vez mais pessoas, principalmente mulheres (brasileiras e migrantes) são presas em prisões feitas por homens e para homens, e o comércio de drogas não cessa, nem diminui.

por Daniella Vianna