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Fernanda Teixeira, menção honrosa: “Precisamos discutir uma política específica para a maconha”

01.12.16 | Notícias
Fernanda Teixeira, editora da revista NeuroEducação. e vencedora da menção honrosa do Prêmio Gilberto Velho

Fernanda Teixeira: além de jornalista, pesquisadora de Neurociências do Desenvolvimento

Fernanda Texeira Ribeiro, 32 anos, ganhou a menção honrosa do prêmio pela reportagem “Maconha: não basta ser contra ou a favor, é preciso entendê-la”. Fernanda foi subeditora da revista Mente e Cérebro por quatro anos, atualmente sou editora da revista NeuroEducação.

Seu trabalho é um dossiê sobre maconha. Por que a revista resolveu dedicar esse espaço nobre a esse tema?

Produzo reportagens sobre a maconha para a Mente e Cérebro desde 2011. A cada publicação, percebíamos que o interesse dos leitores sobre o tema era grande. Nesta reportagem em específico (fevereiro/2016), quis abordar uma dúvida que é comum entre leitores: a suposta relação entre uso de maconha na juventude e aumento da possibilidade de desencadeamento de sintomas de esquizofrenia. É um tema muito pesquisado, porém as interpretações de dados são muito diversas por parte dos pesquisadores. Além disso, existem muitos dados divulgados exaustivamente, mas que se aplicam à realidade dos Estados Unidos (como o aumento progressivo de THC em maconha comercializada ilegalmente), mas não necessariamente à do Brasil. Também achei importante falar sobre isso.

O tema das drogas já a interessava?

Sim. Sou pesquisadora na linha de Neurociências do Desenvolvimento, então me interessam principalmente o efeito de drogas no cérebro em amadurecimento (crianças e jovens). Atualmente, desenvolvo projeto de pesquisa de mestrado sobre a participação do sistema endocanabinoide em comportamentos sociais associados ao autismo, em modelos animais: http://bit.ly/2g6CbWU.

Como foi o processo de produção da reportagem? Quanto tempo levou? Quantas pessoas foram ouvidas?

Levei cerca de dois meses entre fechar a pauta e entregar o texto final. Além dos cinco cientistas que aparecem com aspas no texto (entre neurocientistas, psiquiatras, historiador e antropóloga), ouvi outros seis, que participaram de reportagens anteriores e me esclareceram algumas dúvidas que surgiram. Também procurei e ouvi a Anvisa sobre a situação de importação medicinal de compostos com CBD e THC e também a empresa que exporta o RS Hemp Oil para o Brasil, para saber detalhes sobre o produto.

Qual foi a repercussão da matéria?

Recebemos cartas de leitores e comentários no Facebook da revista, a maioria positivos, frisando a urgência de  discutir novas políticas públicas para a maconha, que levem em consideração a multiplicidade de aspectos relacionados, como a diferenciação entre uso medicinal, consumo recreativo e principalmente a necessidade de regulamentação que restrinja o acesso para menores de idade. Diante da repercussão, estou preparando um livro, que será lançado em 2017 pela Editora Elefante, com a compilação integral de dez entrevistas feitas com cientistas que foram fontes das minhas reportagens.

O que mais te surpreendeu enquanto escrevia a matéria?

Talvez o que mais me tenha surpreendido é como um estudo específico,  controverso e relativamente antigo (Arsenault, L. et al. Cannabis use in adolescence and adult risk for psychosis. BMJ, 2002) é divulgado amplamente no campo da psiquiatria como evidência de uma relação entre uso de maconha na adolescência  e aumento do risco de “desenvolvimento” de esquizofrenia na vida adulta. Além disso, como mencionei anteriormente, na ausência de dados oficiais sobre a composição (teor de THC) da maconha comercializada ilegalmente no Brasil, existem pesquisadores que falam amplamente de um aumento progressivo no teor de THC da maconha (e de possíveis consequências devastadoras para jovens com propensão a transtornos mentais) com base em dados de maconha apreendida e analisada em laboratório nos EUA.

Qual a sua opinião sobre a política brasileira no que diz respeito às drogas?

Acho que é necessária a discussão de uma política específica para a maconha. A importação de compostos de cannabis para uso medicinal já está acontecendo pouco a pouco, devido a muita luta de pessoas que necessitam desses medicamentos para várias condições (epilepsias, dores crônicas, esclerose múltipla etc). Quanto ao uso recreativo, creio que a discussão da descriminalização e regulamentação deve considerar uma campanha de prevenção de uso, voltada especificamente para potenciais efeitos nocivos da droga para os mais jovens, talvez nos moldes das campanhas e restrições de uso feitas com o tabaco (que se refletiu em quedas nos números de fumantes no Brasil). Aprendemos com o tabaco e álcool que publicidade de substâncias, quaisquer que sejam, deve ser limitada ou mesmo proibida, isso seria um desafio a ser considerado. Quanto à regulamentação, creio que pode ser uma maneira de controlar a qualidade da droga comercializada e restringir o acesso por menores de idade.

por Daniella Vianna