Gilberto Velho Gilberto Velho

O Prêmio Gilberto Velho Mídia e Drogas homenageia o pioneiro da Antropologia Urbana no Brasil e o intelectual que inaugurou o debate sobre a questão das drogas na área das ciências sociais no país. Sua tese de doutoramento “Nobres e Anjos – um estudo de tóxicos e hierarquia” foi defendida na USP em dezembro de 1975, ou seja, há 40 anos atrás, em plena ditadura militar. Justamente por causa disso, e por temer a exposição da privacidade dos grupos investigados, Gilberto só concordou com a publicação de seu trabalho em 1998. Até sua morte, em 2012, foi professor titular e decano do Departamento de Antropologia do Museu Nacional da UFRJ. Gilberto foi meu professor no IFCS/UFRJ, meu orientador no mestrado e nos tornamos amigos por toda a vida. A generosidade de Gilberto com seus amigos e seus alunos era um de seus traços mais marcantes – amigo solidário, professor exigente. O prêmio Mídia e Drogas presta homenagem a Gilberto Velho, meu professor, meu amigo querido.

Julita Lemgruber

Coordenadora do Prêmio Gilberto Velho Mídia e Drogas

 

Dizer que Gilberto Velho foi pioneiro é insuficiente para explicar a importância de seu trabalho para o campo de estudos sobre drogas psicoativas no Brasil. Ao produzir uma tese e diversos outros artigos ao longo dos anos 1970 e 80, Velho foi decisivo no processo de consolidação de um campo de estudos sobre práticas percebidas, até então, como desviantes. Em um período no qual o debate sobre drogas era restrito às abordagens médicas e policiais, ele demonstrou a potencialidade metodológica das ciências sociais ao realizar, com notável sensibilidade, investigações sobre usos de substâncias psicoativas em camadas médias urbanas, no qual estabeleceu um diálogo permanente com outro pioneiro, o sociólogo norte-americano Howard Becker, até então ignorado no Brasil. Assim, sua obra contribuiu para que as drogas e seus contextos de uso fossem entendidas para além da dicotomia lícito e ilícito e na desconstrução de categorias opacas que nada explicam, como “mundo das drogas” ou “o drogado”. Embora elas ainda persistam no senso comum, no jornalismo e na produção científica, os trabalhos de Gilberto Velho foram fundamentais para demonstrar empiricamente o enorme equívoco que é reduzir experiências e contextos tão diversos e tão prenhes de sentido a um só mundo ou a um só sujeito.

Maurício Fiore

Pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento