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“O crack é só uma parte da história”

24.11.17 | Notícias

andre cabette“Ao invés de se contar o drama da indigência, conta-se o drama do crack. Conta-se a história incompleta da pessoa. E o crack é só uma parte da história”. Para o repórter do site Nexo, André Cabette a narrativa da imprensa sobre política de drogas ainda é frágil e se apega a aspectos que mascaram o problema e suas complexidades. Cabette tem 28 anos, nasceu em Ribeirão Preto- SP e foi repórter da Folha de S. Paulo e UOL. Conversamos com ele e você confere abaixo:

Como surgiu essa pauta?

André Cabette: A pauta sobre a intervenção na cracolândia surgiu quando a ação aconteceu e a gente fez aquilo que tentamos fazer sempre no Nexo que é tentar contar uma história grande de forma bem completa, passar uma ideia de toda a história. Na matéria sobre a comparação daqui com a de Bogotá surgiu num evento em que um pesquisador estava vindo ao Brasil para discutir políticas de drogas sobre a cracolândia. Aí aproveitamos a oportunidade para conversar com ele e eu achei interessante fazer essa comparação entre os dois lugares, já que ele estava bem preparado depois de algumas visitas dele aqui. Sobre “como evitar uma bad trip” recebemos uma notícia mal explicada sobre um jovem que morreu saindo de uma festa em São Paulo. A redação viu como uma boa oportunidade de discutir sobre redução de danos. No final das contas o caso não ficou tão claro, se ele foi vítima ou se foi algum tipo de ataque. Foi uma história que ficou mal explicada e pelo debate que surgiu em torno dela, a gente resolveu falar disso. No final das contas a matéria nem faz esse link tão claramente.
Quais foram as dificuldades de realiza-la? Como foi o processo de produção da matéria? 
Uma dificuldade que eu lembro no caso da redução de danos foi um medo por parte da redação, de que aquilo fosse encarado pelo público mais conservador como uma defesa do uso de drogas algo como “use drogas, é assim que se usa drogas”. Que de certa forma é um pouco também. Senti que teve uma demora para fechar essa matéria porque a gente fez uma coisa que as pessoas não costumam fazer. Uma matéria onde não começamos dizendo: não use drogas, é uma coisa que vai acabar com sua vida. Ela foi um pouco diferente por isso a redação teve algum receio da receptividade dela. 
O que mais o surpreendeu ao fazer a matéria?
O que me surpreendeu foi o comentário da Maria Angélica, do Respire, na matéria sobre “bad trip” de que os seguranças que poderiam atuar como redutores de dano durante uma ‘bad’, tratam os usuários de forma agressiva e acabam os expulsando dos eventos. E isso segue um pouco a postura da violência da polícia com o usuário, acreditando que ele deve ser punido. Até porque no geral os seguranças são policiais fazendo ‘bico’ nas horas vagas. Mas assim fico surpreso que este tipo de atitude aconteça. É uma cegueira, uma inversão do papel que imagino um segurança deveria ter numa festa. Fica bem claro que as pessoas estão alteradas nas festas em grande parte das vezes com substâncias que o bar vende. Eles deveriam manter a situação sobre controle e acabam agindo de uma forma cega, não reduzindo os danos e colocando para fora uma pessoa alterada o que acaba deixando-a vulnerável.  
Teve alguma consequência? 
Uma festa muito grande da cena eletrônica, chamada Mamba Negra compartilhou a matéria na página deles dizendo que o pessoal precisa se cuidar. Eu achei muito legal eles falarem de forma aberta que as pessoas usam drogas nas festas e dizerem aos usuários que eles precisam tomar cuidado, diminuir os riscos que eles têm ao comprarem drogas que não sabem o que são, sem controle algum de qualidade. Achei muito corajoso. No geral organizador de festa tem muito receio de assumir que as pessoas usam drogas. E não são só em festas do meio eletrônico que acontece isso. Eu sou do interior e nas festas de música sertaneja, nas festas de rock, usam-se as mesmas drogas ilegais. Não há nada que me leve a crer que em festa de música eletrônica se usa mais droga que em outras festas.

O que acha da cobertura da imprensa relativa ao tema das drogas? É preciso mudar?

Um ponto em que ela peca muito é por ter uma narrativa muito ‘fácil’, como no caso das Cracolândias. Erra por tratar do problema daquelas pessoas em situação de vulnerabilidade como se ele fosse causado pela droga. Acho que isso é falso, errado. Tem muito usuário de crack de classe média que não está na cracolândia. As pessoas mais vulneráveis, passaram por outros problemas e o crack entrou no meio, outras drogas podem ter entrado no meio, o álcool por exemplo e ter piorado essa situação. A gente precisa parar com essa narrativa simplista de que a gente usa droga e ela ‘derrete’ o cérebro da gente tornando um zumbi que vai acabar na cracolândia. E a mesma narrativa que quer colocar que o único problema da pessoa na cracolândia é o fato de usar drogas. Acho que ficar embarcando nessa historinha é contar a história de uma forma muito incompleta.  Ao invés de contar o drama da indigência conta o drama do crack. Conta a história incompleta da pessoa. Conta a história do crack que ‘acaba’ com a pessoa. E o crack é só uma parte da história. Uma coisa que precisa ser feita com mais frequência é uma cobertura mais aberta até pelo fato que o público leitor usa droga. A droga ilícita não é uma coisa de fora da realidade do público leitor. As pessoas que produzem notícia usam drogas lícitas e ilícitas.

Qual sua visão sobre a política de drogas no Brasil?

Essa política tá falhando, tá causando muito mais danos à saúde do que se as drogas fossem legalizadas. Tenho certeza disso. Quando você cria esse mercado ilegal de drogas, como a maconha e a cocaína tão amplamente distribuídas, é gigantesco, e controlado por pessoas que vão ter dinheiro para comprar armas. E uma vez que você retira o estado como mediador do conflito das pessoas que estão interessadas nesse mercado, então elas resolvem entre elas mesmas. Obviamente isso nem sempre vai acontecer num acordo de cavalheiros. Se o objetivo da política de drogas brasileiras de proibir a venda era para proteger a saúde pública ela está falhando.

Como o Nexo tem recebido interna e externamente esse tipo de pauta?

O Nexo é bastante comprometido com este tema. Acho que se não trabalhasse aqui eu não sei se eu teria essa mesma ideia de política de drogas se eu cobrisse violência por outro veículo. Tem muita gente aqui que conhece melhor que eu sobre política de drogas e segurança pública. É uma área que o Nexo escolhe trabalhar com bastante cuidado.

 

Por Gabriel Murga