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“O usuário é vitimado duas vezes”

24.11.17 | Notícias
Daniela Martins é editora do jornal Tribuna do Planalto em Goiás, que conquistou o PGV 2017

Daniela Martins é editora do jornal Tribuna do Planalto em Goiás, que conquistou o PGV 2017

Daniela Martins, 36 anos, de Goiânia, é co-autora da reportagem vencedora do primeiro luga do Prêmio Gilberto Velho 2017, realizada em parceria com Yago Sales. Filha de jornalistas, formou-se em 2006. Foi gerente de comunicação de uma entidade de classe (Affego)  e há dois anos é repórter da Tribuna do Planalto, onde também foi editora.

O Yago Sales contou que começou a investigar o pastor e seu centro de recuperação quando testemunhou a agressão dele a um ex-interno, na rua. Como você se juntou ao projeto?

Vi o vídeo da agressão, li um primeiro texto que ele havia escrito para o Medium e fiquei assustada com a violência num local público, sem a interferência de ninguém. Ele me convidou para apurar e denunciar o caso no jornal em que trabalhávamos. Estou numa fase meio desanimada com o jornalismo. Dificuldades financeiras, atrasos nos pagamentos, dificuldades nas condições de trabalho…

Tudo isso estava me afastando da profissão. E o Yago surgiu com todo gás, acabou me contagiando. Devo isso a ele. Então, aproveitamos algumas semanas de recesso no jornal para investigar mais a fundo.

Como foi o processo de investigação?

Fomos juntos à loja onde os internos da casa de recuperação compravam balas para a venda, conversamos com vizinhos do centro, observamos a rotina na hora da chegada dos vendedores. Conversamos também com o dono de imóvel alugado pelo ex-interno agredido no terminal. Fomos a vários locais por conta própria, sem muito apoio, tudo por nossa conta e risco. E a cada descoberta, víamos o quanto a história era forte. Ao final, entregamos um trabalho legal, chamamos a atenção para algo que estava acontecendo na frente de todos, e o Daniel terminou sendo preso.

Quais foram as maiores dificuldades no processo de apuração?

Sem dúvida, a falta de apoio dos veículos de comunicação é a grande dificuldade. As histórias estão aí, na nossa frente, pedindo para serem contadas. Mas investigar, apurar e escrever demandam tempo e condições de trabalho que hoje nem sempre temos, principalmente nos veículos menores. E ainda há a cobrança do dia a dia da redação.

Como foi a repercussão da reportagem?

A repercussão maior veio com a prisão do Daniel. Mesmo depois de a reportagem ser divulgada e começarem as ameaças, nenhum veículo de Goiânia repercutiu. Nada. O Sindicato dos Jornalistas de Goiás que nos deu apoio. Somente após a prisão do Daniel que os veículos deram atenção à história, noticiaram a prisão e o fechamento da casa de recuperação.

Você também sofreu ameaças?

Não diretamente. As ameaças eram dirigidas ao Yago.  

Continua no Tribuna do Planalto?

Sim, continuo.

Como vê as políticas de drogas no Brasil?

Considero que faltam políticas relacionadas à prevenção e à conscientização da população. Ficamos muito na superfície. Nós não entendemos muito bem como a droga interfere na nossa vida cotidiana, promovendo a violência, a corrupção e uma gama de problemas de saúde pública. Essa ignorância em que vivemos é terreno ideal para que aconteçam casos como o da casa de recuperação do falso pastor, em que o elo mais fraco (o usuário) é vitimado duas vezes, pelo vício e por nossa falta de informação.

E a cobertura da imprensa em relação ao tema?

Estamos vivendo uma transformação na imprensa. Os veículos impressos estão ficando cada vez mais enxutos, e a internet ganhando espaço, com suas muitas possibilidades. Acredito que estamos nos adequando a isso e melhorando a qualidade das coberturas, apesar de todas as dificuldades. Tem surgido muita coisa legal (Nexo, Metrópole, El País…), então acredito que a cobertura sobre as drogas tende a melhorar. Penso que essa cobertura precisa alcançar um maior número de pessoas, chamar a atenção de alguma forma da população.