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Segundo dia do workshop ‘Drogas em Pauta’ debate o discurso público sobre as drogas e a experiência de quem vive a guerra

25.11.15 | Notícias
Raull Santiago, Fernanda Mena, Bruno Torturra, Julita Lemgruber e Luiz Eduardo Soares

Raull Santiago, Fernanda Mena, Bruno Torturra, Julita Lemgruber e Luiz Eduardo Soares

No segundo dia do workshop Drogas em Pauta, promovido pelo CESeC para jornalistas e estudantes de jornalismo, Fernanda Mena, repórter especial da Folha de S. Paulo, mostrou como as perspectivas dominantes na imprensa sobre drogas ilícitas mudaram radicalmente desde o século 19. Naquela época, substâncias hoje proibidas eram commodities exploradas por governos europeus. A Grã-Bretanha travou com a China os conflitos conhecidos como a Guerra do Ópio (1839-1842 e  1856-1860) para ter direito de vender no país asiático o derivado da papoula.

Drogas em Pauta

Em 1909, a Conferência de Shangai sinalizou uma articulação internacional contra as drogas. “Como se deu esta mudança?” , indagou Fernanda. A imprensa foi fundamental na propagação do discurso contra as drogas,  conduzida por vários grupos, entre eles médicos e missionários, que viam nas drogas ameaça a saúde, à sociedade e aos valores cristãos. “Foi a maior operação de marketing da história”, definiu.

Em 1961, 1971 e 1988, continuou a jornalista, houve convenções internacionais em que os países se comprometeram a aderir à Guerra às Drogas liderada pelos EUA.  A adesão das nações foi incentivada por uma série de dispositivos punitivos: “Os países que não combatiam as drogas de acordo com o modelo americano não recebiam ajuda das agencias de fomento dos EUA; além disso, os Estados Unidos votavam contra as suas posições nas disputas internacionais”, disse Fernanda.

O também jornalista Bruno Torturra, fundador do  Midia Ninja e do Estúdio Fluxo, comparou o movimento em prol da legalização das drogas ao movimento gay no passado. Como os usuários de maconha e outras drogas, os gays também eram estigmatizados. “A mobilização conseguiu mudar rapidamente a percepção da imprensa e da sociedade sobre a sexualidade. Este grupo veio a público para dizer: não sou doente, não tenho problema”, disse.

Drogas em Pauta

Do mesmo modo, Torturra acredita que também está mudando “a narrativa simplista do usuário como vítima e o traficante como vilão”.  Mas a visão do crack como “epidemia” também causa preocupação. “O traficante passa a ser um agente transmissor, como o mosquito que inocula a epidemia. Isso justifica o extermínio.”

Abismos humanos

Convidado para a segunda mesa do dia, o antropólogo Luiz Eduardo Soares discorreu em tom filosófico sobre as drogas.  “Na verdade, a adição é uma tentativa de controle do tempo de exorcismo da morte. Quem adere a uma substância de forma reiterada busca controle e não caos”, observou.

Drogas em Pauta

“A droga aponta para uma experiência humana radical da relação do sujeito com o seu ser. Lidar com isso com maturidade é enfrentar riqueza extraordinária que somos nós. Estamos diante de algo muito mais sério e profundo do que políticas públicas e definições racionais. Estamos diante dos abismos humanos”.

Seu colega de mesa, o ativista e fundador do Coletivo Papo Reto Raull Santiago, falou sobre as consequências da guerra às drogas na sua comunidade: o complexo do Alemão. Raull começou sua exposição lendo alguns nomes de uma lista de 134 mortos no Alemão desde o início da ocupação do território, por forças militares e policiais, em 2010.  “Nós vivemos a guerra às drogas”, afirmou.

Em um texto distribuído aos participantes, Raull descreve a experiência de viver este conflito: “N@ nossa realidade, as formas desastrosas que a Polícia Militar do Rio de Janeiro – PMERJ atua, usando como discurso a guerra às drogas, apenas alimentam o crescimento de dor, ódio e jogam cada vez mais longe as utopias e ilusões de uma vida onde nossos problemas principais sejam o trânsito, o transporte público, até a falta de emprego, mas não esse risco iminente de morte”.

Drogas em Pauta

Na sua apresentação, ele citou casos de vítimas no conflito, como o menino Eduardo de Jesus, de dez anos, morto em abril por um tiro de um policial; e encerrou com um fecho de  sombrio: “Somos usados, sofremos e morremos, para que os dedos, a mira da arma e a lente da câmera fiquem apontados para nós e não percebam os verdadeiros seres ruins”.

“Enquanto isso, continuará a todo vapor essa engrenagem onde morrerão PMs, morrerão pessoas envolvidas na criminalidade e morrerão os moradores.
Todos pobres, pretos e pretas, descartáveis na opinião de muitos.”

Drogas em Pauta

Estudantes de jornalismo e palestrantes do segundo dia do workshop Drogas em Pauta

por Daniella Vianna