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“Temos uma geração perdida”

24.11.17 | Notícias

paulo renatoColaborador do portal UOL e da Veja, o sul-mato-grossense Paulo Renato Coelho Netto, 52 anos, recebeu o terceiro lugar do Prêmio Gilberto Velho pela sua matéria “20 quilos de maconha nas costas de uma criança”, que mostrou o recrutamento de adolescentes para o transporte de drogas através da fronteira com o Paraguai e para outros estados. Autor de nove livros, ele diz que seu foco é o ser humano e seus dramas.

 

 

Como surgiu a pauta?

No Mato Grosso do Sul, todos os dias tem apreensão de drogas. É rotina. Um dia, fazendo uma matéria, estava conversando com um policial que atua na fronteira. No final da conversa, ele comentou: “a coisa aqui está de uma forma que até adolescente está indo para o Paraguai para trazer maconha”. Isso me chamou a atenção. Comecei a pesquisar o assunto.

 

E como foi a produção da reportagem?

Trabalhei na matéria 40 dias. Depois de conversar com o departamento da Polícia Federal que faz operações na fronteira, fui atrás de juízes, pedi autorização judicial para entrevistar jovens nas unidades de detenção. Também conversei com promotores e dois juízes de varas da Infância e Juventude. Também conversei com psicólogos. No começo, tinham me pedido duas páginas. Mas o assunto rendeu tanto que acabei mandando dez. Na versão online, ela foi publicada na íntegra.

 

O assunto é novidade?

Eu, pelo menos, nunca tinha ouvido falar desses jovens que viagem milhares de quilômetros para buscar a droga. Uns fazem o papel de batedores, dirigindo e checando se tem polícia na estrada. Eles são orientados a dizer que pegaram a droga no Brasil, para não configurar tráfico internacional. Mas não é verdade. Eles vão para o Paraguai, dormem na casa do traficante… Fiquei muito impactado com a história de uma menina grávida, que ficou sozinha uma semana em Ponta Porã, esperando a hora de poder viajar. Ela não podia sair do quarto. Levavam a comida para ela, para evitar que desse com a língua nos dentes. Eu perguntei: ‘Você faz ideia do perigo que correu? Poderia ser violentada, qualquer coisa.” E ela só ficou me olhando… Eu mesmo tive cuidados de segurança.

 

Quais?

Procurei ficar o menor tempo possível na região da fronteira. Fiquei três dias em Dourados. Ninguém sabia onde eu estava. Não usava carro próprio, só taxi, uber. É preciso tomar cuidado. Às vezes você conversa com um jovem que pode passar informação para outras pessoas. Este é um negócio que envolve muito dinheiro.

 

O que mais o impressionou?

A matéria começa com uma menina que queria ser psicóloga. Presa, ela diz que não consegue mais sonhar. Achei isso muito forte. É uma moça magrinha, pequena. Ninguém diria que conseguiria carregar todo o peso de 20 quilos de maconha. Esses jovens estão arriscando suas vidas por falta de opção. Um juiz me falou: “É uma geração desperdiçada”. Nossa região não tem indústrias. Falta emprego para os pais e mais ainda para os jovens.

 

A reportagem gerou repercussão?

 

Aqui, pelo que sei, não. Nem na imprensa local. Isso me deixou chateado. Quando você faz uma matéria dessas, espera que haja alguma ação do poder público, mais fiscalização. Mas acho que se você for para a rodoviária de lá vai ver jovens fazendo a mesma coisa.

 

Como vê a política de drogas no Brasil?

Juízes e promotores da Infância foram unânimes. A solução para esse problema passa pela educação. Eles precisam ter acesso a escolas em tempo integral. Na [unidade de detenção ] Unei eles não aprendem nada. Aí saem e daí? Caem nesse mundo de novo. Não existe no Brasil política para saúde, segurança, infraestrutura . E nem para drogas.